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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Tarda, mas não falha'

Por Mary Arantes , 14/11/2019 às 15:46
atualizado em: 14/11/2019 às 15:58

Texto:


Cresci escutando minha mãe dizer que eu tinha um gosto estragado. Foram seções de terapia sobre esse assunto, já que palavra de mãe tem poder.

Se alguém me mostra um trabalho e digo: que estranho, esquisito... é porque gosto! O estranho, o que difere, sempre fizeram parte do meu conceito de beleza. Mas o assunto da prosa hoje, caro ouvinte, não é dos mais animadores. Todo esse colóquio introdutório é para te amaciar, te contar dos meus gostos estragados.

Toda vez que vou em cidades, dessas muito pequeninas, nunca deixo de visitar o cemitério. Acho uma lindeza a estética deles. As flores de plástico desmaiadas de tanto tomar sol, a pintura encardida, as cruzes de madeira desaprumaaaadas, um pedaço de seda roxo aqui, outra coisa esquisita acolá. Os tipos de plantas que insistem em nascer neste lugar sem um jardineiro fiel... tudo me chama atenção e me encanta.

Outro gosto estragado é que adoro velório! Tirando o susto que a gente leva, na hora que recebe a notícia, e que nos faz jogar a agenda planejada para o lado, ir correndo, esbaforido para o velório, imaginando: E se fosse eu? Afinal o que é que eu estou fazendo da minha vida? Depois dessas questões nunca respondidas e de chorar pelo que sempre nos pega de surpresa, a dona morte, o resto eu gosto.

Gosto de encontrar parentes que nunca mais vimos, amigos remotos, todos ali reunidos. No enterro da tia Liçinha, por exemplo, encontrei Valdelira, minha professora primária! Cheguei em casa em estado de graça. Triste mesmo é quando amigos, desses nem um pouco confiáveis, morrem do nada, sem nos avisar. Mesmo assim a gente ainda acha bons casos para contar desse desaforado.

No interior então velório é um acontecimento. Uns danam a tomar pinga, outros dirigem o fogão e vai saindo cada de comer que é uma maravilha. Sempre tem os que contam piadas para alegrar o ambiente noite afora. O carro passa com o alto falante na rua anunciando o enterro, o sino da igreja sacode sei lá quantas vezes, mais parece dia de festa. A festa da morte, que a gente sempre finge que não é com a gente, mas a maldita tarda, mas não falha!

Recentemente assisti Cortella no Sesc Paladium. Ele contou sobre uma mulher que na plateia de uma palestra perguntou: Se o senhor pudesse, o que gostaria de ouvir no próprio velório? Completamente desconcertado, ele disse que gastou bons minutos para responder, citou filósofos que conhecia e, ainda assim, não conseguiu dar uma resposta decente. Sem graça, levantou-se da mesa, grandalhão e falante como é, e devolveu a pergunta pra mulher: E a senhora? O que gostaria de ouvir? 

Sem pestanejar, ela respondeu: Óh! Ela tá mexendo!!! 
 

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