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Um Levir aleatório

O time não é exatamente ruim, mas...

06/03/2019 às 02:14
Um Levir aleatório

Levir não tem me parecido, nos últimos tempos, um treinador detalhista, obsessivo com posicionamentos, com a sincronia dos movimentos, a harmonia de ação entre as linhas. Sobretudo em termos defensivos e inclusive no que tange à recomposição rápida e eficiente quando a posse é perdida. Nesta seara é bem diferente, quase o oposto de Mano Menezes. Com frequência nota-se o Galo dando espaços exagerados entre os volantes e a zaga. No primeiro tempo do clássico contra o Cruzeiro, por exemplo, essas lacunas não ocasionaram chances claras de gol por equívocos na tomada de decisão em oportunidades diversas, de Rafinha, e pela demora em acionar Thiago Neves na entrada da área num lance, digamos, mais específico, em que o defeito mencionado no combate desnudou-se mais cristalinamente – ele ficou livre um tempão; ao finalmente receber a bola, bateu prensado porque a marcação tinha o cercado. Em alguns jogos esse ano, Elias, como segundo homem do meio, padecia pela dificuldade para recuar, fechar os espaços; talvez por isso, o comandante atleticano tenha o adiantado para atuar aberto pela esquerda, no trio de meias do seu 4-2-3-1 – aconteceu na última partida, diante do Defensor. Zé Welison entrou na vaga de Chará para dar mais consistência, preencher melhor a cabeça de área, o centro do campo. Não sei se a mera substituição de peças, entretanto, será suficiente para dirimir contundentemente as analisadas questões.

Pelos lados, não raro Patric e o beque mais próximo não se mostram em sintonia para saber o instante de “afundar”, centralizar, e o momento de abrir, combater as pontas mais diretamente – não necessariamente o caminho de ambos é o mesmo, e em certas ocasiões o entrave está justamente aí: os dois afunilam sendo que ao menos um teria de sair para atacar o oponente na beirada (e vice-versa). A leitura do criticado lateral alvinegro, por si só, em diferentes circunstâncias se prova falha. É perceptível, porém, que usualmente não predomina, não só nele, aquela convicção natural, aquele entrosamento típico de quem foi treinado com louvável esmero; do companheiro que, organicamente, sabe o que o outro vai fazer – não por mágica, e sim por trabalho, por repetição. Na estreia pela Libertadores, frente o Danúbio, no Uruguai, essa fraqueza pelos flancos revelou-se grave.  

Na fase ofensiva, a carência de ensaio coletivo vira e mexe dá as caras na saída de bola, na tentativa de fazer a transição entre retaguarda e ataque. Não à toa, Adílson vem errando passes bobos, perigosos, na própria intermediária. De novo, existe culpa do atleta, é claro. Mas problemas na falta de compactação, de aproximação, de colegas que já estão automatizados, pelos treinamentos, a dar opções para o passe, contribuem.

Perdura no futebol brasileiro a tendência de individualizar demais os diagnósticos. Boa parte da torcida e da imprensa faz isso. É mais fácil de “ver”, explicar; ganha-se a sensação de que encontrou-se um motivo “objetivo”. “Fulano é péssimo, Sicrano não marca, é preciso escalar Beltrano para ter mais ‘pegada’, não dá para ficar sem um ‘Pitbull’...”. Há ocasiões nas quais o obstáculo se materializa pela deficiência de qualidade do jogador; em outros casos, pelo que é tático, coletivo, referente aos treinamentos e/ou à leitura do comandante. Não raramente, estas limitações se misturam...

Outra mania comum por nossas bandas é a de especificar, restringir as carências de um elenco de modo assaz matemático, por posições, como se o esporte bretão fosse ciência exata. “A equipe X precisa de um lateral esquerdo, um atacante, e um armador; o esquadrão Y, por seu prisma, de um zagueiro e um ponta de velocidade”. Em várias situações esse tipo de exame procede, óbvio. O futebol, todavia, em distintas acepções escapa desse mecanicismo. Às vezes, o cenário é o seguinte: “tal time está num nível de excelência ok; num patamar tênue, em determinado sentido; pode encaixar e suceder; mas precisa de algo mais, de um talento extra para tornar a chance de êxito acentuado realmente considerável”. É o quadro do Atlético...    

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